À espera
de regatos transbordantes
Por Mary Turgi, CSC
A crise da água é a mais
difundida, a mais grave e a mais invisível dimensão da
destruição ecológica da terra.
-
Vandana
Shiva, física indiana e ativista do
meio ambiente.
...as guerras do
próximo século serão levadas a
efeito por causa da água...
-
Ismail
Serageldin, antigo vice-presidente do Banco Mundial
A água, fonte de vida, é talvez a nossa riqueza
mais frágil e
mais preciosa. Mas a água doce da terra está sendo assaltada
por toda parte. Os humanos manipulam, poluem e devastam as
reservas de água doce num ritmo alarmante. Se não mudarmos
radicalmente o nosso comportamento, em 2025, aproximadamente
dois terços da população do mundo serão confrontados com
falta de água grave
ou, no mínimo, moderada.
Já se estima que 1,2 bilhão de pessoas, quase uma
em cinco, não tem acesso a água potável limpa. A metade da
população mundial não
dispõe de um sistema adequado de
purificação de água e 40% dela não tem um sistema sanitário
adequado. Como observou o perito em água, Peter Gleick, os
serviços de água da metade da população mundial são
inferiores aos da Grécia e Roma antigas.
Num planeta cuja
superfície é em
grande parte constituída de água, as fontes de abastecimento
parecem inesgotáveis. Mas a realidade é que a água doce
não
representa senão
2,5% do elemento líqüido
e que menos de 1%
pode ser utilizado de modo renovável.
A única fonte de água renovável é a chuva
continental que gera aproximadamente entre
40.000 e 45.000 quilómetros cúbicos por ano. A população
mundial, todavia, continua a aumentar mais ou menos em 85 milhões
por ano, ao mesmo tempo em que o consumo de água dobra a cada
20 anos – 2 vezes mais rapidamente que o crescimento da
população. Não
espanta, pois, que World Resources, uma publicação do
Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas e do World
Resources Institute, advirta que a falta de água fará parte
das questões mais quentes deste século.
Dilúvio e seca: água e mudança climática
A escassez de água está estreitamente ligada a uma
outra ameaça para a sobrevivência da
terra: a mudança global do clima.
É comumente reconhecido que as temperaturas do globo
estão em alta e que os humanos são em maioria responsáveis
por essa mudança por força do uso excessivo de fontes fósseis
de energia.
Mas o aquecimento da terra não significa somente
temperaturas mais elevadas. Segundo os cientistas, a manifestação
mais verossímil da mudança climática será a mudança no
quilíbrio das águas sob a forma de líqüido, de vapor e de
gelo.
H
Temperaturas mais elevadas farão aumentar a evaporação,
a qual paradoxalmente levará a secas mais freqüentes e mais
graves e a chuvas torrenciais.
Essas chuvas abundantes aumentarão as inundações e a
drenagem das águas, reduzindo assim a
capacidade da água
de penetrar no solo.
H
As temperaturas mais elevadas significam também
menos neve e mais chuva.
Menos umidade há de acumular-se sob forma de neve e
mais água há de se escoar no inverno, quando a importância
para a agricultura é mínima.
H
Com o aquecimento das temperaturas, os gelos do mar
e as geleiras derreterão
e o nível do mar continuará a subir, acelerando assim
a contaminação salina dos aqüíferos de água doce e dos
deltas dos rios.
A água: esgotada e degradada
Lixo agrícola
No mundo inteiro, a agricultura consome 70% da água.
Segundo os peritos em água doce, esse uso infelizmente não
é produtivo: pelo menos a metade da água desviada para a
agricultura não produz nenhum alimento.
A maior parte do desperdício de água na
agricultura é o resultado de uma irrigação intensa e
ineficaz e da grande demanda de água para as colheitas
chamadas de “revolução verde”.A irrigação intensiva
parece muito atrativa para os produtores porque ela dá
uma renda mais elevada e produz várias colheitas por ano.
A longo prazo, todavia, esse tipo de irrigação
diminui o produto da colheita e assim contribui para a
inseguridade alimentar. Freqüentemente a exploração agrícola
de irrigação intensiva acrescenta mais água ao solo do que
a capacidade natural dele pode absorver. O resultado é a
saturação de água e a salinização do solo, visto que os
sais remontam à superfície. A produção de duas ou três
colheitas por ano empobrece o solo, de tal modo que maiores
quantidades de fertilizantes e de outros produtos químicos
deverão ser usadas para compensar, se se quiser prosseguir a exploração agrícola.
Isso traz problemas adicionais já que o escoamento das águas
dessas terras contamina de poluentes químicos as fontes de água
doce.
Pompeamento excessivo dos aqüíferos
A produção de alimento e de outras necessidades
humanas não somente esgota
e polui a água doce de superfície, mas também drena
as reservas de águas subterrâneas.
H
O aqüífero de Ogallala – um dos maiores do mundo
– cobre uma superfície de
225.000 milhas quadradas sob oito estados americanos e
fornece água para um quinto das terras irrigadas dos Estados
Unidos. Segundo
estimativas conservadoras, a água atualmente é bombeada num
ritmo dez vezes mais elevado do que a sua reposição natural.
H
Em muitos estados da Índia, a taxa de extração de
água subterrânea é de tal modo elevada que as lençois freáticos
diminuem de um a três metros por ano.
H
Os aqüíferos do México também são
superexplorados. Alguns bairros da cidade do México afundam
um pé por ano e, no estado de Guanajuato, a camada de água
diminui de 1.8 a 3.3 metros por ano.
H
Em muitas regiões costeiras, as lençóis freáticos
baixaram tanto que a água do mar invade os aqüíferos -
colocando em perigo a qualidade da água e limitando o
seu uso para o consumo e irrigação.
No mundo inteiro, por desleixo, as nações põem em
perigo as reservas de água doce.
“A sanção para o mau gerenciamento desse recurso
inestimável agora já chegou”, previne a International
Water Management Institute,
“não há nenhum exagero em dizer
que os resultados
podem ser catastróficos...”
Perigos causados
pelas barragens
Durante
os séculos passados, os humanos construíram tantos canais,
barragens, e reservatórios que o resultado da repartição
das águas afetou o movimento da terra na sua
rotação. Foi somente nestas últimas décadas que se
perceberam as conseqüências ambientais desses projetos. As
barragens e os seus reservatórios não só perturbaram os
ecossistemas ribeirinhos, mas também salinizaram a água e o
solo.
Pelo fato que os reservatórios expoem tanta áqua
ao sol, grande quantidade dela perde-se pela evaporação. Na
água que resta, aumenta a concentração de sal. Como essas
águas são encaminhadas para terras agrícolas e hidratam o
solo, acumulam cada vez mais sal
e retornam
para os rios com uma taxa de salinidade ainda mais elevada.
Assim água e terra são lentamente envenenadas pelo
sal.
O desastre salino mais abominável situa-se no mar
Aral na Ásia Central. Há várias décadas, os principais
rios que alimentam o Aral foram transformados em diques para
irrigar os campos de algodão. Num dado momento, o quarto maior lago de
água doce do mundo, o Aral, perdeu
25% do seu volume comparado ao que tinha em 1960.
Enquanto perdia em
tamanho, a sua salinidade quadruplicou – acarretando
o desaparecimento de 24 espécies locais de peixe e de uma indústria
florescente de peixe que empregava 10.000 pessoas.
A cada ano, as tempestades de vento transportam do
leito ressecado do mar toneladas de pó, de sal e poluentes
agrícolas, causando enfermidades e a contaminação do
ambiente. Os prejuízos montam a de 1,25 a
2,5 bilhões de dólares anualmente.
Água
para o lucro?
A
escassez de água
doce é
certamente um dos maiores problemas que enfrentamos. O
esgotamento desse recurso e a poluição não são, todavia,
as únicas ameaças para a seguridade da água. A ameaça mais
grave talvez resida nas soluções ligadas a essa crise: a
mercantilização da água e a sua privatização. Diante da
escassez crescente da água, os governos e as instituições
internacionais aumentam a campanha por uma solução econômica:
colocar a água à venda, deixando o mercado como árbrito do
futuro.
O tráfico da água é um grande negócio. A revista Fortune diz que a água
promete ser no séc.XXI o que foi o petróleo no séc.XX: uma
mercadoria preciosa que determina a riqueza de uma nação.
Desde já os lucros anuais da indústria da
água é equivalente a 40%
da do petróleo.
E isso com somente de 5 a 7% da água do globo presentemente
nas mãos da empresa privada; para um punhado de empresas
transnacionais a crescente crise da água não é um problema,
mas uma oportunidade de lucros enormes.
A água em função do lucro tem várias faces.
A indústria da água engarrafada classifica-se entre
as primeiras que crescem rapidamente pelo mundo afora. Sempre
em busca de novas fontes, as empresas percorrem a terra –
comprando fazendas, terras de autóctones, trilhas selvagens,
sistemas de água – indo para outra parte quando as fontes
se esgotam. As empresas transnacionais constroem também
aquedutos gigantescos, super-navios cisternas e mesmo imensos
sacos selados de água, para transportar a toda parte do mundo
e vender para quem oferecer mais.
Cada vez mais consideradas como um “bem” econômico
ou “serviço”, a água está submetida às regras do comércio
internacional. Os entendimentos de livre comércio e as
negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) dão
às empresas um acesso sem precedentes às fontes de água
doce dos países signatários. Por exemplo, segundo o Acordo
de Livre Comércio Norte Americano (NAFTA), se o Canadá começar
a vender água aos Estados
Unidos, qualquer tentativa de fechar as torneiras poderia ser
considerada como uma violação comercial e poder-se-ia
permitir aos investidores corporativos acionar o Canadá pelos prejuizos econômicos. Já uma companhia do California está acionando o governo
Canadense porque a Colômbia Britânica proibira a exportação
comercial de água.
Uma das tendências mais controvertidas na
comercialização da água consiste na
transferência ao setor privado do serviços de água públicos
– um processo correntemente chamado de “privatização”. Por várias razões os governos dos países desenvolvidos,
tanto quanto os em vias de
desenvolvimento, nấo querem mais ou são incapazes de
oferecer tais serviços. Freqüentemente, os países pobres são
forçados a privatizar os serviços públicos a fim de
qualificarem-se para empréstimos ou para a redução das dívidas.
As empresas transnacionais prometem serviços mais
eficazes, e mais baratos, mas geralmente a realidade é bem
diferente.
H
Em Cochabamba, Bolívia, os custos de água
cresceram em 200% após a privatização do sistema. Certos
residentes pagam mais pela água do que pela comida. Os
protestos de rua transformaram-se em motins. Após tiros
mortais, o governo cedeu e rescindiu o contrato.
H
Em 1992, Suez obteve o contrato de 30
anos para a gestão dos sistemas de água e de esgoto
de Buenos Aires, na Argentina. A companhia aumentou os serviços,
mas foi lenta
para instalar os encanamentos para a água servida. O excesso
de água produzido foi tal que o lençol freático
subiu, inundando ruas e
subsolos com as águas dos esgotos.
H
Na França e no Reino Unido os custos para o
consumidor também subiram em flecha
após a privatização da água. Mesmo o muito
conservador “Daily Mail” do Reino Unido acusou as
maiores companhias de “terem conseguido um dos maiores
roubos autorizados
da nossa história.”
Em todo o mundo, quando os serviços de água foram
privatizados, os resultados eram previsíveis: custos mais
elevados, a qualidade da água comprometida, os serviços
cortados para as pessoas pobres demais para pagar, e o que
é mais, a perda do
controle público de um recurso crítico.
Da escassez à abundância
Se deixar o mercado gerir o
futuro da água não é uma solução, o que deverá
ser feito? Felizmente nada há de desesperador na situação.
Sabemos como recuperar e proteger a água do mundo.
Uso mais eficaz da água
H
Repor em bom estado as infraestruturas envelheeidas: Em muitos países, ao menos 30% das reservas em águas
domésticas jamais atingem o seu destino por causa de
encanamento furado, de equipamento com defeitos ou de má
conservação do sistema de distribuição.
H
Servir-se de novas tecnologias para reduzir o gasto.
A
água que chega ao consumidor
é não raro desperdiçada – literalmente lançada ao esgoto.
Chuveiros e vasos sanitários mais econômicos em água
poderiam fazer uma diferença surpreendente. Na cidade do México,
graças a um programa de conservação da água, substituíram-se
350.000 velhos vasos sanitários e assim sobrou água bastante
para abastecer 250.000 residentes.
H
Substituir a agricultura “Revolução verde” por
estratégias de conservação “Revolução azul”. Agricultores
de todo o mundo provaram que sistemas de aspersórios muito
eficazes e de irrigação por gotejamento podem cortar o uso
de 30% a 70% e assim mesmo obter melhor resultado na colheita.
H
Optar por um regime alimentar baseado em cereais.
Podemos conservar água ao mudarmos não só a nossa maneira
de produzir alimento, mas também pela escolha do que comemos.
A produção de uma libra de milho exige somente de 100 a 250
galões de água; produzir grãos para obter uma libra de
carne bovina exige de 2.000 a 8.500 galões.
Recuperar e reciclar
Em
vez de buscas sem fim por novas fontes de água, empregar
tepos diferentes de água para necessidades diferentes.
Há maneiras de reaprovertar a nívers distentas de
pureza águas poluídas e de esgoto e usá-las para
reabasteser a água do sub-solo, forneur indústrias irrigar
plantaçoĕs e até aumentar a água potável.
Por
fim aos danos causados pelas barragens
É
preciso desmantelar as barragens mais nocivas e submeter a indústria
de barragem ao
controle democrático. É preciso garantir que os novos
projetos de água obedeçam aos valores essenciais da
“Comissão Mundial de Barragens”: eqüidade, eficiência,
tomadas de decisão participativas, sustentabilidade e
responsabilidade.
Desenvolver uma nova ética da água
Ainda mais crítico, importa desenvolver um novo
consenso global em relação à água. Como
afirma o Treaty Initiative to Share
and Protect the Global Water Supply:
H
Devemos afirmar que o valor intrínseco da água
precede o seu valor utilitário e comercial.
H
Devemos reconhecer que a água doce pertence a toda
a terra e a todas as espécies. Ela não é propriedade
só dos humanos nem uma mercadoria a ser manipulada só
pelo lucro.
H
Devemos afirmar que o acesso à água doce limpa não
é somente uma necessidade humana, mas um direito humano
fundamental.
H
Finalmente devemos estatuir que o provimento global
de água doce é um bem comum – uma herança partilhada e um
encargo público, responsabilidade de cada um(a) de todas e nós.
Mary Turgi, irmã de Santa Cruz, é a diretora
do Escritório de Santa Cruz internacional para a Justiça
e editora
de Perspectivas.
**********
Alimentos geneticamente modificados: Milagre ou Ameaça
Por Al Mahoney
É
revoltante que ainda hoje, o debate no Norte sobre o
desenvolvimento não possa oferecer ao Terceiro Mundo senão a
opção de morrer de fome ou da perda dos meios de subsistência
ou morrer de alimento insalubre.
Anuradha Mittal, co-diretora
de Food First/Institute for Food and Devolopment Policy
Ao longo dos últimos anos, provavelmente nada tenha
suscitado tantos debates acalorados
de natureza ética e ambiental quanto
a manipulação genética dos alimentos. O Relatório
sobre o desenvolvimento
humano das Noções Unidas
em 2001, louvou as colheitas geneticamente modificadas
(OMG) como sendo a mais recente solução tecnológica para a
fome universal. Mas países como a Zâmbia recusam a ajuda em
alimentos dos Estados Unidos a despeito de enfrentar uma
estrema escassez de víveres, porque o milho é geneticamente
modificado. Que é mesmo essa “modificação genética” (ou
manipulação genética) e por que seria um assunto tão
controvertido?
Os organismos geneticamente modificados (OMGs) são
micro-organismos, grãos, plantas ou animais cuja estrutura
genética foi alterada pela introdução de um gene modificado
ou de um gene provindo de uma outra variedade ou espécie.
Desde os primórdios da agricultura, os humanos apelaram para
a biologia com o fito de modificar as plantas e os animais. Os
métodos tradicionais de reprodução, todavia, eram fundados
na transferência de materiais genéticos dentro das mesmas
espécies. O que muda na manipulação genética
contemporânea, tão controvertida, é o fato de que
ela implica freqüentemente a transferência de genes de uma
espécie para outra; por exemplo, um gene de peixe é
fusionado com DNA de tomate.
Existem duas principais tecnologias de manipulação
genética que incidem sobre as colheitas: a primeira produz
sementes cujos brotos produzem os seus próprios pesticidas; a
segunda modifica as sementes de tal sorte que elas resistem a
herbicidas particulares, como o Roundup da Monsanto.
Teoricamente tais modificações fomentam o crescimento da planta e incrementam-lhe o rendimento.
Existem muitas evidências, todavia, de que as
sementes OMG não correspondem ao que deles se espera. Jorge
Eduardo Rulli, um
agrônomo argentino, relata que
durante os seis últimos anos, 90% dos agricultores
argentinos foram
incentivados a usarem as sementes de soja Roundup
Ready para dobrarem as suas colheitas. A realidade é a de
que o rendimento por hectare foi menor. Paralelamente, em mais
de 8.200 plantações nos EE.UU
onde este método foi seguido, as sementes Roundup
Ready renderam menos sacas de feijões de soja do que as
variedades naturais.
Com efeito, longe de ser uma solução para a fome
mundial, as colheitas OMG são uma ameaça para a seguridade e
um perigo para o meio ambiente.
H
Apesar das afirmações de que a produção
alimentar OMG não são perigosas, verificações cabais para
se identificarem os efeitos a longo prazo para a saúde dos
humanos ainda não foram feitas. A British
Medical Association, a U.S. Union of concerned
Scientists, e muitos membros da Saúde Canadá, todas elas
preveniram que a seguridade dos produtos geneticamente
modificados é incerta.
H
Os cientistas estimam que se utilizássemos universalmente as sementes modificadas,
resistentes aos herbicidas, chegar-se-ia a multiplicar por três
a quantidade de herbicidas tóxicos
altamente potentes de que se faz
uso na agricultura. Além de envenenar o solo e a água,
esses herbicidas – especificamente
concebidos para destruir o que é verde – terão um
impacto sobre as espécies de plantas ameaçadas à extinçāo
e as plantas não cultivadas, mas empregues pelos pequenos
agricultores como alimento suplementar para os animais.
H
As colheitas geneticamente modificadas (OMG) são
“poluentes biológicos”.
$
O vento, os pássaros, as abelhas e os insetos
polinizadores transportam o pólen geneticamente modificado
para os campos vizinhos, contaminando assim a DNA das
colheitas que não foram geneticamente modificadas, colocando
assim em risco a diversidade genética.
$
O pólen do milho-Bt geneticamente manipulado é tóxico
para as borboletas monarcas; há cada vez mais evidências de
que as colheitas OMGs afetam negativamente outros insetos benéficos,
bem como os micro-organismos do solo, as abelhas e os
passarinhos.
$
As colheitas geneticamente modificadas espalham as
suas propriedades para as plantas da mesma família, criando
assim “ervas daninhas superiores”. Exames em laboratório
e de campo indicam que os parasitas de plantas ordinárias,
sob o impacto das colheitas OMGs rapidamente se tornaram
“super parasitas”.
H
O aumento da produção de colheitas OMGs, acrescida
da patente corporativa dos grãos e das plantas OMGs, ameaça
de destruição a prática tradicional da agricultura. A
metade dos agricultores do mundo conta com os grãos
conservados da colheita anterior. Mas a lei sobre patentes de
muitos países industrializados proíbem aos agricultores a
reutilização dos grãos patenteados. Se as plantas OMGs
contaminarem outras colheitas vizinhas, milhões de
agricultores estarão impedidos de reutilizar legalmente os grãos
de suas próprias colheitas e serão forçados cada ano a
comprarem os grãos OMGs novos e custosos (assim como os
elementos químicos requeridos). A indústria bioquímica está
a desenvolver tecnologias destrutivas que
tornam inférteis os grãos colhidos, a fim de impor
seus produtos patenteados, assegurando assim os seus lucros.
Os críticos, com efeito, afirmam que as colheitas
OMGs foram inventadas precisamente porque são patenteáveis.
Eles sustentam que a manipulação genética das colheitas não
visa de jeito nenhum a alimentar os
famintos do mundo, mas antes
a aumentar o controle
das empresas sobre a produção de alimentos. Quando de uma
reunião da Organização para a alimentação e
agricultura das Nações Unidas (FAO) em 1998, os delegados de
18 nações africanas denunciaram vivamente a exploração que
a Monsanto faz de imagens de uma África faminta como estratégia
em vista da promoção de grãos OMGs, bem como de adubos e
herbicidas (ver quadro abaixo).
Cada noite, mais de 800 milhões de pessoas deitam-se
sem ter comido, mas não necessitamos de manipulação genética
para dar solução a esse problema.
O mundo já produz mais alimento do que é necessário
para todos. Os
verdadeiros problemas consistem numa distribuição injusta do
poder e dos recursos. As
pessoas que passam fome são pobres demais para comprar o
alimento disponível e não têm um pedaço de
terra onde plantar para si mesmos.
A solução desses problemas não depende de
tecnologias arriscadas, mas de uma mudança econômica e política
em profundidade.
Al
Mahoney, um padre de Santa Cruz
da Província Anglo-canadense, trabalhou principalmente
no México e no Peru. Neste momento é responsável pelo
secretariado de
Justiça e Paz da Congregação de Santa Cruz, situado em Toronto, Canadá. A esse título ele assiste o
conselheiro geral, James Mulligan, CSC, e trabalha em tempo
parcial como membro do pessoal do Secretariado para a Justiça
de Santa Cruz internacional.
**********
Os
senhores da
messe
H
As dez companhias de grãos mais
importantes controlam 30% do mercado de grãos de semente no mundo.
H
As dez companhias agro-químicas
mais importantes controlam 84% do mercado agro-químico do
mundo.
H
Cinco dos sete primeiros
“Gigantes dos genes” estão entre as 10 companhias de grãos
mais importantes do mundo.
H
Cinco dos
sete primeiros ‘Gigantes dos
genes’ mais importantes (Pharmacia [Monsanto],
Dupont, Syngenta, Aventis e Dow) controlam:
$
quase 62% do mercado agro-químico
do mundo
$
quase 22% do
mercado de grãos de semente do mundo
$
e praticamente 100% dos grãos de
semente OMG.
Os grãos de semente OMG da Pharmacia (anteriormente
Monsanto) representavam 94% da totalidade da produção OMG no
ano 2000.
Fontes:
O grupo ETC (outrora RAFI), Comunicado, julho/agosto 2001; a
Revista World /Watch, nov.-dez. 2002
**********
Fontes
de informação sobre água doce e os OMGs
SITES WEB
H
o site BSCIJ,
www.holycrossjustice.org
fornece numerosa fontes sobre problemas da
água, os OMGs e o controle corporativo da produção
de alimentos assim como links para outros sites relativos aos
mesmos assuntos.
H
O site Council
of Canadians, www.canadians.org fornece informações, em francês e inglês, sobre as
campanhas que se fazem sobre a água e a biotécnica. O site Blue Planet Project, www.canadians.org/blueplanet
também oferece muitas referências em
espanhol e português, assim como em francês e inglês, sobre
o que diz respeito à água.
H
O site Greenpeace
Brasil www.greenpeace.org.br, fornece numerosas fontes de informações sobre alimentos
geneticamente modificados assim como um guia sobre produtos
com ou sem OMG.
H
O site Worldwatch Institute www.worldwatch.org oferece pesquisas internacionais
e inter–disciplinares sobre importantes tendências
ambiebntais, sociais e econômicas.
O site oferece uma biblioteca de recursos sobre meios
de criar uma sociedade cujo meio ambiente seja
sustentável e cujo sociedade seja justa.
Vai ao site, clicar Publications, procure International
Editions, vai até o fim da página e clicar português.
H
O site International
Year on Water Visitar o site da UNESCO para o
ano international de água:
www.Wateryear2003.org
e clicar português para mais informações sobre água doce e
sobre os meios para sublinhar este ano.
VIDEOS
H
A água: elemento sagrado e
profano (20 minutos) apresenta-se como uma
reflexão a explorar a natureza sagrada da água. Naturalistas,
autores, poetas e ecologistas partilham as suas percepções
sobre a água, o elemento mais abundante e essencial da terra.
O programa inclui imagens impactantes da água
sob todas as suas formas e conclui com uma montagem de
quatro minutos, acompanhada de música, sobre as belezas da água.
(Inglês)
H
Extratos
de NOW com Bill Moyers
Leasing
the Rain (30 minutos)
conta a história da privatização da água em
Cochabamba, Bolívia. Baseada em pesquisa do escritor William
Finnegan no New Yorker, esta
parte da sua pesquisa descreve a tomada de controle da água
de Cochabamba pela filial da Bechtel e os protestos homicidas
que se seguiram à tentativa de Bechtel de “apoderar-se da
chuva”. O artigo completo de Finnegan, publicado
no New Yorker de 8 de abril de 2002, está disponível no
site HCIJO.
Seeds of Conflicts (25 minutos) descreve como o milho geneticamente modificado
subverte a agricultura global. O programa abrange um leque de
opiniões, ao mesmo empo em que o jornalista
Mark Shapiro fala dos agricultores do México cujas
colheitas foram contaminadas pelos OMGs, de pesquisadores a
injetarem medicamentos nos alimentos e de cientistas a
alertarem, dizendo que
os alimentos OMGs são como gênios a “saltarem da garrafa”.
O artigo de Shapiro foi publicado integralmente na revista The
Nation de outubro de 2002 e está disponível no
site HCIJO. (Inglês)
H
Usurpação dos genes – ou
alimentos mutantes (The Genetic Takeover – or Mutant Food) (52 minutos) examina uma série de questões sobre os
alimentos geneticamente modificados, incluindo a ciência da
manipulação dos genes, o impacto dos alimentos OMGs sobre os
agricultores e os consumidores e as
diversas reações
públicas aos alimentos OMGs na Europa e na América do
Norte. Entrevistas com críticos e pesquisadores, como Jeremy
Rifkin e a canadense Michele Brill-Edwards, revelam a natureza
secreta das biotecnologias em prol do lucro e alertam os
espectadores sobre os perigos de um controle inadequado. The
Genetic Takeover foi descrito como um
“maravilhoso documentário” que ressalta as questões
maiores e as dúvidas legítimas sobre a usurpação corporativa
da nossa herança genética. – Produzida pelo Office
National du Film du Canadá. – Disponível em francês
no Secretariado das Irmãs de Santa Cruz. (Telefone :
514-747-1885; fax : 514- 748-0092) Disponível em inglês no
Escritório pela Justiça de Santa Cruz Internacional
Empréstimo gratuito de vídeos em inglês em VHS ou PAL: Sister of the Holy Cross Justice Resourse Library (ksmedley@cscsisters.org ; fax:
574-284-5596).
LIVROS
H
The World´s Water
2002-2003 : The Biennial Report on Freshwater Resource,
Peter
Gleick, et al., Island Press, Washington, D.C. 2002 (ver também
The World´s Water
1998-1999)
H
Water Wars: Privatization,
Pollution, and Profit, Vandana Shiva, South End Press,
Cambridge, Mass., 2002
H
Blue Gold: The Fight
to Stop the Corporate Theft of the World´s
Water, Maude Barlow & Tony Clark, The
New Press, New York, N.Y. 2002
H
Stolen Harvest: The
Hijacking of the Global Food Supply, Vandana Shiva, South End Press, Cambridge,
Mass., 2002
**********
O
que se pode fazer?
Questões relativas à água doce
Celebrar 2003 como o Ano Internacional da Água Doce (AIAD)
H
Planificar um evento educativo ou
de oração
H
Visitar o site web da Unesco para
o ano international da água www.wateryear2003.org
e clicar languages português para mais informações sobre água
doce e sobre os meios para sublinhar este ano.
H
Na sua comunidade explorar as
questões relativas à água:
o
A água doce é pura?
o
Os pobres têm acesso a ela? Se não,
como Santa Cruz pode ajudá-los?
o
Como as pessoas do seu meio
protegem a água da exaustão e da poluição?
o
Como você pode conservar a água
na sua casa e na sua comunidade?
H
Olhe de muito perto as tentativas
de privatização dos serviços de água na sua região.
H
Apoiar o Treaty Initiative to Share and Protect the Global Water
Commons no site web
HCIJO.
Alimentos OMGs
H
Informar-se sobre as leis do seu
país no que diz respeito aos alimentos OMGs. Se elas protegem
os agricultores e os consumidores, escrever uma carta de
agradecimento à agência governamental em questão. Se não,
juntar-se a uma campanha nacional em favor dessa proteção.
H
Questionar a sabedoria e a ética
da manipulação genética.
H
Opor-se ao controle corporativo do
sistema mundial de alimentos, especialmente às patentes sobre
grãos, medicinas
naturais, plantas e outras formas de vida.
**********
Peru
: as usinas de transformação do
peixe de Chimbote galvanizam a resistência
Por Tom King, CSC.
Durante o período áureo da pesca nos anos ´60s, Chimbote
era a cidade mais importante da costa norte peruana. Nos anos
´50, a população da cidade era de 15.600 habitantes. 50
anos mais tarde, ela atingiu 350.000, com os novos e numerosos
imigrantes vivendo em casas de palha, construídas em terrenos
que pertencem a outrem. Esse crescimento dramático da população,
acrescido de destruição ambiental causada pelas usinas de
transformação do peixe, acarreta situações horrorosas na
cidade.
Atualmente há 21 usinas de transformação do peixe
em Chimbote.
Somente cinco servem-se de tecnologia que limpa adequadamente
o peixe e controla a poluição. As dezasseis outras lançam
as toxinas no ar, na água, no solo, fazendo de Chimbote uma
das cidades mais contaminadas do Peru. As partículas de
fuligem – uma combinação de óxido de carbono, de bióxido
de enxofre e restos de peixe
- escapam das usinas causando doenças respiratórias,
alergias, odores nauseabundos e uma elevada concentração de
produtos químicos tanto nas áreas residenciais como nas agrícolas.
Quem vive perto das usinas contraem muitas vezes doenças dos
olhos. As pessoas expostas durante muitos anos aos poluentes
das usinas vêem alteradas a cor da sua pele: tornam-se azuis.
As usinas de transformação do peixe lançam a maior parte
do seu lixo líqüido, inclusive sangue e óleo, na baía e
esgotos. Para cada 18.000 toneladas de peixe, 36.000 toneladas
de água servida são jogadas diretamente na baía ou esgotos,
sem nenhum tratamento. Isso leva ao bloqueio do sistema e ao
transbordamento do esgoto. Quando das inundações, os
detritos dos esgotos espalham-se pelo setor residencial.
Economicamente, a maioria dos habitantes de Chimbote está a
mercê das usinas de transformação do peixe. 70% dos
residentes da cidade dependem dessas indústrias para viver.
45% estão em situação de extrema pobreza, causada
principalmente pelos pequenos salários e a taxa de desemprego
que é elevada. Em 1998, o desemprego estorou, por causa principalmente da queda da quantidade de peixe levada a
efeito pelo El
Niño. Mas mesmo depois dele, a taxa do
desemprego continuou elevada. Presentemente somente 4 das 21
usinas de transformação do peixe de Chimbote estão
funcionando.
Porque elas preparam o filé de peixe mais rapidamente e
melhor, a maioria dos empregados são mulheres.
Os salários, todavia, são tão baixos que muitas
abandonam esse trabalho para empregar-se como domésticas no
Chile. Milagros, uma mulher da paróquia Holy Cross, partiu
para o Chile – deixando atrás o seu filho de 12 anos e
filha de 10 anos com o seu pai – porque ganhava menos de três
dólares por dia. A sua situação é típica da desintegração
familiar causada pela pobreza.
Em face de situações tão difíceis, as pessoas estão
provocando mudanças. Por exemplo, Maria Elena Foronda
cofundou e dirige Natura
, uma ONG centrada sobre a melhoria das
condições ambientais e sobre a qualidade de vida dos
pequenos assalariados de Chimbote. Em 1994, Natura e o
Ministério da Saúde com a Comissão e da Ecologia, Ambiente
do Congresso Nacional, lançaram uma campanha contra a poluição
criada pela indústria do peixe. Pouco tempo depois, Maria e o
seu marido foram presos como “terroristas” e detidos
durante 13 meses, mesmo sem nenhuma prova de culpabilidade.
Ironicamente esse abuso acabou reforçando o trabalho
ambiental em Chimbote e levou a novos esforços coletivos para
encontrar soluções para os problemas da cidade: viveiros
comunitários, limpeza dos brejos contaminados e mobilização
da população para a construção de sistemas de água e
esgotos. Com o tempo, Chimbote desenvolveu sua própria Agenda
Local 21 – um plano de ação ambiental que
abranje toda a cidade.
Nove anos após a sua prisão, Maria continua a sua luta –
insistindo mais sobre as soluções do que sobre demonstrações.
Hoje ela trabalha para convencer a indústria do peixe
que a implantação de equipamentos modernos aumentaria a
produção e o lucro. Se
as usinas utilizassem novas tecnologias, insiste ela, haveriam
de produzir peixe de melhor qualidade e num tempo tão breve
como seis meses recuperariam o investimento inicial.
Além disso, a nova tecnologia diminuiria de muito a
poluição.
Um pesquisa recente indica que 90% dos residentes de Chimbote
acreditam que os
seus problemas ambientais podem ser solucionados se todos os
setores trabalharem juntos. A esperança e a determinação
dos chimbotanos contrastam assinaladamente com as condições
miseráveis em que vivem. Mas como afirma
Maria Foronda: “O povo com certeza acredita num
futuro melhor.”
Patrícia
Crane – irmã da Santa Cruz – é responsável pela
Pastoral de Saúde
da Diocese de Chimbote. O foco dessa pastoral é a saúde
integral e o uso de medicina alternativa ( medicina a base de
ervas, reflexologia, terapia pelo toque, etc.) O secretariado
acaba de instalar o primeiro Centro de Atendimento de
pacientes nos meses finais de vida (Hospice Program) no Peru.
Tom
King é um professo de votos temporários da Congregação de
Santa Cruz (EP) e é estudante de segundo ano de Mestrado em
Teologia na Universidade Notre Dame. Antes de entrar em Santa
Cruz trabalhou em
residências e estudantis serviços à comunidade em várias
universidades. Como parte do seu trabalho, monitorou as experiências
de serviço nacional e internacional de estudantes. Tom passou
o verão de 2002 no Peru, familiarizando-se com o apostolado
de Santa Cruz em Chimbote e Canto Grande.
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Enfrentar
o lixo de Gana
Por Michael Amakyi, CSC
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